Selenium metallicum

por E. A. Farrington — Matéria Médica Clínica

Referência histórica para profissionais e estudantes. As afirmações abaixo refletem os ensinamentos homeopáticos do autor indicado e não comprovam a eficácia do tratamento. Este texto não constitui aconselhamento médico e não deve substituir um diagnóstico ou cuidados adequados.

REINO MINERAL.

Proponho agora iniciar o estudo dos medicamentos obtidos do reino mineral. Coloquei no quadro (veja a página seguinte), para vosso estudo, os elementos com algumas de suas relações, tal como os encontramos na química. Eles não foram dispostos dessa maneira para atender à matéria médica. Esta não é uma disposição absoluta, que não possa ser alterada sem perder sua correção. Desejo explicar aqui a ideia geral da relação entre os medicamentos, especialmente daqueles pertencentes ao reino mineral. Se consultardes a química, vereis que os elementos mantêm entre si uma relação elétrica. Mantêm entre si uma relação de polaridade, como eletricamente positivos e eletricamente negativos. Alguns desses elementos são acentuadamente negativos e outros, de modo igualmente definido, positivos. Alguns elementos, como o ouro, a prata etc., ocupam uma posição intermediária, sendo relativamente neutros. Coloquei-os no ponto neutro do ímã. A vantagem deste método de estudo será percebida à medida que avançarmos. Sabe-se que os eletronegativos são condutores de luz, e os positivos, condutores de calor. Os efeitos extremos a esse respeito são observados em cada um dos polos e diminuem à medida que nos aproximamos da curvatura do ímã. Outro fato que vale muito a pena conhecer é esta afirmação geral: os eletronegativos atuam sobre os intestinos pela manhã e sobre o peito à tarde; isto é, sua ação ascende pelo corpo durante o dia. Com os eletropositivos ocorre exatamente o contrário. Estes atuam sobre o peito pela manhã e sobre os intestinos na parte final do dia. A maioria de vós conhece a diarreia matinal de Sulphur, que faz o paciente sair às pressas da cama. Sabeis como a asma desse medicamento aumenta à tarde. Tomando os medicamentos do extremo oposto, temos como exemplos os sais de Kali; sabeis que apresentam agravação dos sintomas torácicos antes do meio-dia e dos sintomas intestinais à tarde. Esta é, naturalmente, uma afirmação muito geral, mas pode ser de grande utilidade para vos permitir diferenciar os medicamentos. Permiti-me ilustrar. Tendes um caso de escrófula e sois obrigados a decidir entre Sulphur e algum sal de cálcio. Ficaremos surpresos ao ver quão semelhantes são muitos dos sintomas desses dois medicamentos. O próprio fato de a diarreia ocorrer de manhã ou à tarde, por mais insignificante que possa parecer em outras circunstâncias, serve como sintoma diferencial entre os dois medicamentos. Ao fazer esta afirmação, não quero dizer que, pelo fato de Sulphur produzir diarreia matinal, ele deva ser sempre o medicamento quando esse sintoma se apresenta; quero dizer, porém, que, quando sois compelidos a decidir entre dois medicamentos cujas ações seguem direções opostas, essa relação adquire grande importância. À medida que vos aproximais desses medicamentos ou substâncias químicas no ponto neutro do ímã, verificais que tais efeitos se tornam cada vez menos pronunciados, até que, por fim, deixam de ser perceptíveis.

Eletronegativos:

Oxygen; Ozone; Nitric ac.; Amyl nitr.

Sulphur; Selenium; Sulph. ac.; Carboneum sulph.

Fluoric ac.; Iodine; Spongia; Bromine; Chlorine; Muriatic ac.; Cyanogen.

Carbo veg.; Carbo an.; Graphites; Petroleum; Cosmoline; Silicea.

Phosphorus; Phosphoric ac.; Arsenicum alb.; Arsenicum iod.; Tellurium; Antimon. crud.; Antimon. tart.

Aurum; Argentum; Mercury; Thallium; Cuprum.

Neutros: Platina; Palladium; Osmium; Iridium; Indium; Rhodium.

Eletropositivos:

Antozone.

Hydrogen.

Ammonium; Kalium; Natrum; Lithium.

Calcarea; Baryta carb.; Strontia carb.

Zincum; Magnesium; Cadmium; Alumina; Plumbum; Stannum.

Ferrum; Manganum; Niccolum; Kobaltum.

Há outro fato que podemos aprender com esta disposição dos medicamentos. Notais que aqui temos oxigênio e enxofre. São elementos químicos colocados próximos um do outro na química e semelhantes não apenas como substâncias químicas, mas também como medicamentos. Em seguida na lista temos o nitrogênio, usado na medicina sob a forma de ácido nítrico. Abaixo dele temos uma lista de medicamentos que constituem um grupo conhecido na química como halogênios; são eles Fluorine, Fluoric acid, Iodine, Bromine e Spongia. Este último medicamento foi colocado aqui não como substância química, mas como medicamento que deve suas propriedades medicinais ao iodo e ao bromo que contém. É de valor prático recordar esses medicamentos nessa relação, pois não são apenas quimicamente semelhantes, mas também se assemelham como medicamentos. Além disso, esse agrupamento permite manter em mente um conjunto de medicamentos dentre os quais podeis escolher aquele que corresponda ao vosso caso. Introduzi aqui Cyanogen por manter importantes relações químicas e medicinais com os halogênios. Abaixo temos o grupo do carbono: Carbo veg., Carbo animalis, Anthrakokali, o diamante e Graphites. Coloquei também nesse grupo Petroleum e Cosmoline, duas substâncias oleosas, ricas em carbono e com muitas semelhanças com os carbonos puros.

Em uma conferência futura, vereis que posso mostrar-vos características comuns a todos os carbonos. Direis: aqui está um paciente que necessita de alguma preparação de carbono; qual deverá ser? Isso é determinado da mesma maneira pela qual escolhestes um dos halogênios. Em seguida temos um grupo composto de Phosphorus, seu ácido e Arsenicum. Abaixo temos Tellurium, Antimonium crudum e Antimonium tartaricum, que é suficientemente semelhante ao sulfeto para ser colocado ao lado dele. Esse grupo de medicamentos possui muitas semelhanças. Phosphorus e Arsenic são continuamente contrapostos na mente do médico, e muitas vezes lhe é difícil decidir qual deles administrar.

As preparações de antimônio têm forma semelhante e são isomorfas ao enxofre e ao selênio. Há outro fato que podemos tomar emprestado da química: substâncias de estrutura cristalina semelhante apresentam efeitos medicinais semelhantes. Na química, essas substâncias frequentemente substituem umas às outras. Apresento-vos esses fatos para que possais formar uma concepção racional dos medicamentos, não como meros indivíduos, mas como entidades coerentes com a natureza e consigo mesmas. Aqui embaixo temos os metais nobres, ouro e prata. Podemos então subir por este lado, acompanhando os medicamentos segundo a mesma relação que seguimos do outro lado. Todos sabem quão estreitamente relacionados, química e medicinalmente, estão o bário e o estrôncio. Essa relação é muito semelhante à de identidade de origem. Eles não costumam suceder-se bem. Aqui estão Sulphur e Sulphuric acid; suponhamos que tenhais de decidir entre eles e que se trate de um caso desconcertante. Dizeis: “Administrarei Sulphur e, se ele não estiver melhor amanhã, administrarei Sulphuric acid”. Isso é má prática. Seria muito melhor dizer: administrarei Sulphur hoje e Calcarea amanhã. Por quê? São medicamentos semelhantes, mas inteiramente estranhos quanto às relações de família. Por que insisto nessas duas relações? Porque desejo que distingais entre aquilo que é igual e aquilo que é semelhante. Ignatia e Nux vomica assemelham-se em demasia, quase como se fossem a mesma coisa. Ignatia e Zinc são medicamentos concordantes, semelhantes, mas não idênticos. Notais que coloquei o hidrogênio acima de todos os sais de potássio. Notais que aqui foi colocado o antozone. Ozone é oxigênio negativo, enquanto antozone é oxigênio positivo. Ozone existe no ar marinho, e quantas vezes enviais vossos pacientes à beira-mar em busca de alívio! Podemos extrair dessa afirmação um fato higiênico: se tenho um paciente com características de Sulphur, pensaria que o ar marinho lhe faria bem, porque é rico em ozone e, de modo geral, o ozone corresponde ao seu estado. Por outro lado, se ele pertencesse mais à classe dos medicamentos constituídos por “sais”, eu não o enviaria à beira-mar. Enviá-lo-ia para onde houvesse antozone, como nos nevoeiros. Passaremos agora ao estudo dos medicamentos derivados do reino mineral. Dedicarei o restante da hora à consideração de Selenium. Amanhã estudaremos aquele rei dos medicamentos, Sulphur.

Selenium: Arum tri.; Caust., Carbo v., Phos., Spong.; Sulphur. Selenium < Cinch. Selenium < Vinho. Selenium > Ign. Selenium > Puls.

Selenium é isomorfo ao Sulphur e assemelha-se a ele tanto química quanto medicinalmente. Verificamos que produz muito pouco efeito sobre o sangue e os vasos linfáticos, mas atua sobre o sistema nervoso. Frequentemente o encontramos indicado nas doenças nervosas. Parece produzir fraqueza ou debilidade geral que envolve todas as partes do corpo. Essa debilidade manifesta-se por fadiga fácil após qualquer esforço ou labor. Se o paciente permanece acordado até um pouco mais tarde à noite, ou esforça a mente um pouco além do habitual, fica exausto durante todo o dia seguinte e, por isso, incapacitado tanto para o trabalho mental quanto para o físico. É particularmente debilitado pelo tempo quente. É evidente que o calor o enfraquece, pois a fraqueza aumenta com o calor do corpo, e ele se torna mais forte à medida que o sol se põe e a temperatura diminui com ele. Fica indolente em razão dessa debilidade. Deseja dormir por pura exaustão e, no entanto, está sempre pior depois de dormir. Não suporta qualquer esgotamento nervoso; consequentemente, piora após emissões seminais, sejam voluntárias ou involuntárias. Em consequência da perda seminal, surgem, no dia seguinte, irritabilidade, confusão mental, cefaleia, fraqueza quase paralítica da coluna vertebral, eliminação involuntária de líquido prostático e gotejamento de sêmen durante o sono, após a evacuação e depois de urinar. Percebereis imediatamente a semelhança do medicamento com Sulphur. Ambos apresentam efeitos nocivos decorrentes do esgotamento mental e da perda de sono, e ambos têm emissões involuntárias e prostatorreia. A distinção reside no fato de que Selenium piora com o relaxamento. Encontramos aqui duas substâncias adequadas a estados semelhantes; contudo, essa nuance diferencial é suficiente para vos permitir saber qual delas é mais útil para o vosso caso. Ambos apresentam impotência. Com Sulphur há mais frieza e enrugamento dos órgãos genitais. Com Selenium há mais desse completo abandono do tônus ou relaxamento, de modo que o sêmen escapa involuntariamente e gota a gota.

Podemos ser chamados a empregar Selenium nas sequelas da febre tifoide. Quando o paciente começa a andar, há tamanha debilidade da coluna vertebral que ele teme ficar paralítico. Vedes novamente a grande semelhança entre Sulphur e Selenium. Sulphur é inestimável na exaustão consequente a doenças prolongadas. Encontramos isso também em Selenium. Selenium não apresenta sintomas tão característicos de Sulphur quanto as ondas de calor ao menor movimento. Sulphur apresenta mais aquela sensação de fraqueza e vazio antes do meio-dia, que não é pronunciada em Selenium.

Encontramos Selenium também indicado na cefaleia de origem nervosa. A dor tem caráter picante e geralmente se localiza acima do olho esquerdo, agravando-se pelo calor do sol. Notai novamente como o tempo quente influencia o paciente de Selenium. As cefaleias retornam com periodicidade bastante definida todas as tardes e são aumentadas por qualquer odor forte, como o odor de tuberosas, almíscar etc. Essa cefaleia é evidentemente nervosa, pois está associada a profunda melancolia e fluxo profuso de urina clara e límpida. Frequentemente encontrareis este último sintoma em pacientes histéricos. Outros medicamentos, contudo, apresentam-no de modo mais pronunciado que Selenium.

Outra indicação da natureza nervosa dessa cefaleia é observada no fato de o paciente piorar ao beber chá e com certos ácidos, sobretudo a limonada. Até mesmo a água de tamarindo agrava. Temos aqui novamente semelhanças com Sulphur no retorno periódico da cefaleia. Com Sulphur, contudo, ela não retorna todas as tardes, mas todas as semanas; tampouco esse medicamento apresenta agravação pelo chá, embora a apresente pelo café.

Encontrareis ambos os medicamentos indicados na cefaleia dos alcoólatras e daqueles que se entregaram a excessos. A cefaleia de Sulphur piora com todas as formas de bebidas alcoólicas. A cefaleia de Selenium às vezes melhora com conhaque, assim como os sintomas gástricos. Verificareis que o paciente deseja intensamente conhaque. Ora, isso não é a ânsia do alcoólatra. Resulta de uma fraqueza peculiar do estômago, na qual o paciente sente como se necessitasse de algo que o estimulasse; deseja-se conhaque por exercer um efeito paliativo temporário. O mesmo sintoma é encontrado em Staphisagria e Hepar sulphur, ambos os quais apresentam aquele grande relaxamento e sensação de repuxamento para baixo, ou falta de tônus nas paredes do estômago, com a consequente insuficiência da secreção de suco gástrico.

Selenium é indicado em uma forma peculiar de obstipação. Chega-nos muito bem recomendado, mas falhou no único caso em que o empreguei. A obstipação para a qual está indicado deve-se puramente à atonia do trato intestinal. A ação peristáltica é quase nula, de modo que as fezes ficam impactadas. As fezes tornam-se duras e secas pela absorção de sua umidade e precisam ser removidas por meios artificiais; afirma-se, contudo, que Selenium restitui o tônus do reto e impede a recorrência desse sintoma. O mesmo sintoma é encontrado em Alumina, Opium, Plumbum e Bryonia, mas estes provavelmente não são indicados com tanta frequência durante a convalescença.

Outra peculiaridade de Selenium, que caracteriza seus sintomas, é a natureza do sono. O paciente dorme em breves cochilos. Desperta frequentemente durante a noite ou é facilmente acordado por qualquer leve perturbação. Desperta exatamente à mesma hora todas as manhãs, antes do horário habitual de se levantar, ocasião em que todas as suas queixas predominantes estão piores. Aqui novamente se assemelha a Sulphur. Esses “breves cochilos” são característicos de Sulphur. A verdadeira insônia de Sulphur é a seguinte: o paciente é despertado do sono, fica então completamente desperto e não está disposto a adormecer novamente. Ele não apresenta essa hora periódica de despertar todas as manhãs, que indica Selenium.

Outra semelhança entre os dois medicamentos pode ser encontrada nas afecções da pele. Selenium é útil nas doenças cutâneas, particularmente quando há prurido nas dobras da pele, como entre os dedos e ao redor das articulações, especialmente da articulação do tornozelo. O prurido também pode ocorrer em pequenos pontos e associa-se a formigamento, mostrando aqui novamente o envolvimento do sistema nervoso. Caem os cabelos da cabeça, os pelos das sobrancelhas e da barba, bem como os de outras partes do corpo. Encontrareis no couro cabeludo uma erupção eczematosa que exsuda líquido seroso depois de coçada. Aqui novamente apresenta marcante semelhança com Sulphur, mas distingue-se desse medicamento — se o paciente tiver idade suficiente para descrever seu caso — pelo formigamento localizado em pontos.

Às vezes, embora não com frequência, verificamos que Selenium, assim como Sulphur, está indicado nas afecções crônicas do fígado. É especialmente requerido no aumento do fígado acompanhado de perda de apetite, particularmente pela manhã; há saburra branca sobre a língua, o que imediatamente o distingue de Sulphur. Além disso, quando Sulphur apresenta perda de apetite, há aumento da sede, que falta em Selenium. Existem dores agudas em pontada na região hepática, piores por qualquer movimento e pela pressão. Há sensibilidade do fígado e uma peculiar erupção fina sobre a região hepática. Se esta estiver presente, Selenium é o único medicamento em que podeis pensar como correspondente ao vosso caso.

Selenium exerce ação muito pronunciada sobre a laringe e os pulmões. Vários animais foram envenenados com Selenium. Ele produziu inflamação da membrana de revestimento da laringe e congestão dos pulmões, com exsudação na substância pulmonar. O exame post mortem mostrou a membrana mucosa congestionada, com manchas violáceas escuras dispersas por ela. À incisão pelo bisturi, seguiu-se exsudação de sangue e soro espumoso. Empreguei Selenium com êxito na rouquidão dos cantores, particularmente quando ela aparece assim que começam a cantar. Também pode ser empregado quando a rouquidão surge após uso prolongado da voz. Há necessidade frequente de limpar a garganta em razão do acúmulo de muco claro, semelhante a goma de amido. Esses sintomas são fortemente sugestivos de laringite tuberculosa incipiente. Nesse caso, Selenium agrupa-se com Arum triphyllum, Spongia, Causticum, Carbo veg. e Phosphorus.

Arum triphyllum produz efeitos inteiramente diferentes, mas apresenta forte semelhança sintomática com Selenium. Também é útil para a rouquidão de cantores e oradores, mas está especialmente indicado quando a voz falha subitamente durante o uso. Por exemplo, o paciente fala em uma espécie de monotonia quando a voz se quebra de repente e sobe para um tom mais agudo.

Os antídotos de Selenium são Pulsatilla e Ignatia. China e vinho são-lhe incompatíveis. A debilidade causada por Selenium, segundo Hahnemann, é muito aumentada pelo uso de Cinchona. Ora, a emaciação causada por Selenium é muito semelhante à de Cinchona. Temos debilidade e emaciação decorrentes da perda de líquidos orgânicos. Isso também se encontra em Cinchona; contudo, os dois medicamentos são incompatíveis.

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